sexta-feira, 3 de abril de 2009

INTITULADO -- PT. 5

Johnny entra na sala do delegado. Não dirige a palavra a ele, nem o encara nos olhos.

- Senhor Johnny Willians?

- Sim, senhor - Johnny responde baixo, olhando para a mesa.

- O senhor era próximo do sr. Jorge Teixeira Lopes?

- Sim, senhor. A gente estudava na mesma sala. Inclusive marcamos um estudo em grupo para sábado, para uma prova de biologia na semana que vem. Foi na hora do intervalo, quinta passada.

- Aonde estava no dia do crime?

- A gente saiu da sala, fomos comer alguma coisa na cantina. Depois eu fui pra minha casa. Tinha uns moleques que ficavam enchendo a gente, por causa do que aconteceu com a Laysa, acho que ela já deve ter contado isso. Daí eu fui pra minha casa e ele esperou pela mãe dele.

- Quem foi te buscar na escola?

- Minha mãe.

- O que fez depois?

- Eu fiquei fazendo um trabalho de redação em casa.

- A srta. Laysa e o sr. André comentaram sobre três rapazes, Rafael, Gabriel e Bruno. Pelos relatos, eram três rapazes que frequentemente incomodavam vocês, sendo necessária a intervenção dos pais do sr. Jorge. Ainda de acordo com seus amigos, um desses rapazes, o sr. Rafael Andrade, havia perturbado vocês com mais freqüência, chegando a colar imagens obscenas nos seus armários, cortejar a srta. Laysa de uma forma desrespeitosa e ameaçar vocês. Isso tudo lhe confere, sr. Willians?

- Sim, senhor! - Johnny teve a mesma reação dos amigos ao ouvir o nome dos rapazes, porém estava mais enraivecido.

- Algo a acrescentar?

- Tenho, sim! - Johnny o encarou nos olhos pela primeira vez. Sua expressão era um misto de raiva, rancor e desespero – creio que seja uma conseqüência desse fato, a minha presença aqui, ou um pouco mais do que isso. Esse outro, Gabriel, Gabriel Aikashi, era um colega de sala do Rafael. Eles se conheceram na quinta-série, quando foram para a diretoria depois de uma 'treta' no recreio. Dali pra frente, eles estavam sempre andando juntos, eu nunca via eles separados. A não ser depois da aula, em alguns dias. A classe deles era vizinha da minha sala, ano passado. O Jorge estudava comigo. Um dia a gente estava na cantina, e eles sentaram perto da gente. Foi como se o Rafael quisesse apresentar o novo amigo para a gente. Eles jogavam batatas-fritas na nossa cara, quando eu falei que ia chamar o servente, o Gabriel tirou uma faca da mochila. Ele pôs de volta pra ninguém ver, veio até mim e disse pra não falar nada, se eu gostásse da minha vida. E as ameaças continuaram. Além disso, foi dele a idéia de colar aquelas fotos nos nossos armários.

- O senhor chegou a fazer alguma queixa contra ele?

Johnny abaixou a cabeça de novo. Ele rezava para não ouvi mais uma ameaça, ou coisa pior, depois de ter feito seu relato.

- Não, senhor. Aliás, essa é a primeira vez que eu falo sobre isso, sem ser com o Jorge, a Laysa ou o André.

- Você não sabe que esse tipo de denúncia é feito sob sigilo, sr. Willians? Ninguém teria como saber que foi você.

- Eu sei disso. Mas se ele desconfiásse que alguém sabe disso, sendo eu, ou não, ele iria me culpar. Eu vi ele fumando maconha perto da escola, não relatei também.

O delegado esfregou a testa. Via á sua frente um rapaz quase traumatizado, e uma testemunha em potencial, mas com um problema sério e um amigo falecido.

- É o seguinte, rapaz. Eu vou ter que chamar esses rapazes para prestar depoimento...

- Não, senhor, por favor! - Johnny o interrompeu sem hesitar.

- Me ouve, pelo menos! Eu direi que estamos chamando todos os rapazes para depoimento, a gente chama toda a sala deles. Qual é?

Johnny pensou por uns três segundos. Olhou para a parede, em busca de alguma imagem que pudesse lhe oferecer conforto.

- Sala 21, segundo andar.

O delegado anotou em seu papel. Anotou os detalhes de depoimento de Johnny, e o nome Gabriel Aikashi. Depois recostou-se na cadeira.

- Algo mais?

- Não, senhor?

- Pois bem... - O delegado pegou uma folha, uma caneta e entregou a Johnny – Coloca seu nome, telefone e e-mail.

Johnny o fez e deixou a sala.

André estava tomando um refrigerante. Seu pai, café. Laysa estava roendo as unhas, olhando para um quadro na parede. Os três sentados num sofá. Levantaram quase que ao mesmo tempo, quando Johnny deixou a sala.

- E aí, o que aconteceu? - André quebrou o silêncio.

- Ele vai chamar toda a sala do Rafael pra depoimento.

- Vai dar em alguma coisa? - Laysa tenta esboçar uma esperança.

- Vamos ver!

O pai de André os levou de volta às suas casas. Ele descia em todas e tinha uma breve conversa com os pais. A compreensão e colaboração veio de todos. Johnny subiu devagar as escadas. Não falou muito com os pais, apenas o que queria para o jantar. Tentava se sentir aliviado por desabafar com alguém. Obviamente temia a retaliação. O rosto de Gabriel vinha á sua cabeça repetidamente. Ele passou a noite em claro.

No dia seguinte, Johnny via uma viatura da polícia ao lado da escola.

- Para aqui, mãe!

- Mas a gente não chegou!

- Mãe, encosta!!

(Continua...)

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